A palavra SENCIÊNCIA deriva da palavra SENTIRE do latim, e significa SENTIR.
De acordo com a definição de Singer (2002), senciência é a capacidade de sofrer, sentir prazer ou felicidade. Já Broom (2006), diz que: “Um ser senciente é aquele que apresenta alguma habilidade para avaliar as ações de outros em relação a si mesmo e a terceiros, para se lembrar de algumas de suas próprias ações e suas consequências, para avaliar risco, para ter alguns sentimentos e para ter algum grau de consciência”
Resumindo, senciência é a capacidade que o individuo tem de sentir: sentir prazer, alegria, medo, angústia, dor, tristeza, etc.
E para que importa?
À partir do momento que sabemos que um animal possui essa capacidade, é nosso dever evitar que estes tenham sentimentos negativos e fazer com que haja os positivos, ou seja, se sabemos que tal procedimento irá causar dor em um animal, como uma cirurgia, devemos utilizar recursos que evitem esse sentimento, como a analgesia e anestesia, ou, ampliado mais, podemos falar do medo: se sabemos que um determinado manejo irá gerar o medo nos animais, devemos evitá-lo ao máximo, como por exemplo: deixar um suíno sozinho. Sempre que possível, todo o manejo deverá ser feito em pequenos grupos, pois assim, eles se sentirão mais seguros.
Mas quais animais são senciêntes?
O que atualmente é aceito, é que todos os VERTEBRADOS (isso inclui:peixes, anfíbios, aves, répteis e mamíferos) são senciêntes. No entanto, diversos pesquisadores já inclui nessa lista, os cefalópodes (lulas, polvos, chocos e nautilus) e os crustáceos decápodes (caranguejos, lagostas e camarão), inclusive, em alguns países, esses animais já estão incluídos nas leis de proteção animal.
OU seja, é uma discussão ainda aberta no meio cientifico e tudo pode mudar com o tempo. Aqueles que até hoje são considerados como não senciêntes poderão ter essa capacidade comprovada no futuro. Sendo assim, devemos partir do principio de que TODOS os animais sentem e, à partir daí, evitar causar dor e sofrimento à eles.
Como a evolução dos animais seguiu diversas linhas e em diversas formas e intensidades, de acordo com a sua necessidade, é de se acreditar que essa capacidade de SENTIR também tenha evoluído de diversas formas nas populações animais, até para se garantir a sobrevivência, porque a SENCIENCIA irá permitir que um animal evite situações que causem DOR e lesões e o MEDO irá fazer com que os animais fujam de situações de risco.
Logo, a SENCIÊNCIA deverá ser abordada QUANTITATIVAMENTE e não QUALITATIVAMENTE, ou seja, a melhor pergunta seria: QUAL O GRAU DE SENCIÊNCIA DE UM ANIMAL? e não, ESSE ANIMAL É SENCIÊNTE OU NÃO?
Abordagem comportamental
A abordagem neurológica para a comprovação de existência da senciência toma como ponto fundamental, a CAPACIDADE DE APRENDIZAGEM de um animal, ou seja, um animal que foi exposto à uma situação que trouxe alguma experiência negativa, como dor ou medo, irá tentar evitar passar por isso novamente.
Ex. um rato que pisou em uma placa eletrificada e recebeu um choque, irá evitar ao máximo ter que pisar na placa novamente.
OBS. Em relação a capacidade de aprendizagem, é abordada a presença da memória, independente se é de curta ou longa duração, mas se ela existe.
Um vídeo bem legal sobre isso, é a do corvo produzindo ferramenta para pegar o alimento.
Abordagem neurológica
Nessa abordagem, investiga-se as semelhanças estruturais e fisiológicas entre os animais.
Tronco cerebral e conexão tálamo-cortical - estruturas fundamentais para a senciência - presente em todos os vertebrados!!!
Nociceptores - estruturas simples que transmitem diversos estímulos, como a dor - presente em todos os vertebrados!!!
No entanto, como já foi dito antes, a evolução percorre diversos caminhos, sendo assim, a ausência de estruturas associadas com a senciência nos humanos em certos animais, não permite a conclusão de que esses animais não são sencientes.
As emoções fundamentais
Em seu livro " O bem-estar dos animais", Temple Grandin fala muito sobre a teoria do Dr. Panksepp (1998) sobre as emoções fundamentais dos animais.
De acordo com esse pesquisador, os animais já nascem com alguns sistemas de emoções fundamentais, como BUSCA, RAIVA, MEDO e PÂNICO. Esses sistemas serão bases para diversos outros sentimentos e explicarão comportamentos.
- BUSCA
Gera PRAZER ao animal.
Ex:. o ato de fuçar do suíno é gerado por essa emoção. O animal terá um estimulo e "esperança" de encontrar algo interessante. Gera prazer ao animal. Por isso, oferecer recursos que permitem esse comportamento nos suínos, é muito importante. A sua ausência causará FRUSTRAÇÃO.
É o mesmo sentimento que estimula os gatos à caçar (mesmo que não seja para se alimentar) ou o cão a farejar.
- RAIVA
É essa a emoção responsável pela energia necessária para o animal lutar ou fugir, ao ser capturado, por exemplo.
A FRUSTRAÇÃO será uma forma amena da RAIVA, quando o animal é restringido ou coibido.
ex:. porcas presas em gaiolas de gestação, impedidas de fuçar e movimentar-se, convive com a frustração e, por isso, muitas vezes desenvolvem os COMPORTAMENTOS ESTEREOTIPADOS.
- MEDO
É essa emoção que faz com que os animais sintam a necessidade de fazerem ninho - o medo irá fazer com que o animal procure lugar que não ofereça ameaças à sua prole.
Animais impedidos de fazerem ninhos, como poedeiras em gaiolas, vivem com essa emoção estimulada.
- PÂNICO
Acredita-se que essa emoção tenha evoluído da dor física. Isso explicaria porque a morte de um ente querido causa sensação de dor físico, e, o mesmo pode acontecer com animais.
Ex:. Um suíno separado do seu grupo entra em pânico, é visível, e isso dificulta muito o manejo desse animal.
A dor para os animais
A dor possui uma função protetora para os indivíduos, pois sinaliza o risco à sobrevivência do animal, disparando o sistema de luta ou fuga.
A dor para um animal pode ser pior para os animais do que para os homens, pois, o homem sabe o que está acontecendo e que certos tratamentos ou medicamentos poderá aliviar esse sentimento, e o homem tem a capacidade de uma visão futura sem essa dor (a esperança), já o animal não tem essa expectativa, ele não entende que alguns procedimentos nossos em relação à ele irá diminuir ou cessar aquela dor, ou ele não imagina que a dor de estomago, por exemplo, poderá já não existir amanha.
O animal VIVE a dor em sua magnitude, como a VERDADE e não como algo passageiro, por isso sofre mais, pois não há a esperança.
(espero ter sido clara aqui, essa parte é meio filosofal,rs)
Resumindo (se é que é possível)
Devemos, então, ter em mente dois princípios básicos:
O principio da HOMOLOGIA e o principio da PRECAUÇÃO
Principio da Homologia:
vários
animais
apresentam similaridades anatômicas,
genéticas, comportamentais e evolutivas com o ser humano,
as quais tornam provável a existência de senciência;
Principio da Precaução:
Se existe uma possibilidade de senciência
nos animais, temos a obrigação de considerar esta senciência
em nossas decisões
Para finalizar:
Uma vez que não existe resposta clara sobre quais animais são sencientes, dar aos animais o benefício da dúvida torna-se um dever moral, sendo necessário tratá-los como seres sencientes (SEMPRE e a TODOS).
Vejam esse último vídeo. É uma graça!!!
N.C

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